O sertão, com a sua vegetação, a sua história já inspirou e inspira muitas criações na moda, virou tema, referências, Literatura de Cordel e até filmes, a caatinga é a vegetação do sertão e foi nela, que aconteceu no Brasil, um movimento de banditismo no Nordeste brasileiro, chamado Cangaço, composto por homens desordeiros que tiravam o sossego não só dos ricos, como dos camponeses mais modestos, os chamados Cangaceiros, no começo, a ideologia era outra, mas depois a coisa debandou. Começou por volta de 1870 e terminou em 1940, com a morte de Corisco, o último cangaceiro famoso.
Nas décadas de 20 e 30, foi a era do alto cangaço, com o mais famoso cangaceiro, o Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, a história ainda não conseguiu responder, se ele foi herói ou bandido, ele é um dos personagens mais controversos do Nordeste brasileiro, na visão do estado, ele o seu bando cometeram uma série de assassinatos e roubos pelo sertão, segundo fontes seguras, também estupros. Mas, há um outro olhar sobre o cangaço, de que foi um movimento para se fazer justiça, de rebelião contra a opressão e a miséria sustentada pelos coronéis. Entre o mito e a verdade, essa história ressurge nas inspirações da Moda.
O Cangaço nos anos 20 e 30
Lampião começou no cangaço por vingança, porque o pai morreu em confronto com a polícia, ele entrou no cangaço aos 21 anos de idade. Era devoto do padre Cícero. Conheceu Maria Gomes de Oliveira, a Maria Bonita, em 1929, ela já havia sido casada, não teve filhos e estava livre para Lampião, coisas do destino, ela entrou no Cangaço em 1930, passou 8 anos ao lado de Lampião, morreram em 1938, na Grota de Angicos, em Poço Redondo, bem pertinho de onde o ator Domingos Montagner morreu, fica a 22km de Canindé de São Francisco.
Quanto à confecção das roupas, Lampião, antes de entrar para o cangaço, costurava e bordava as suas roupas, inclusive bordava à máquina. Na época, os homens cortavam e costuravam as suas roupas, era uma prática da sociedade pecuária, dos homens do sertão, eles sabiam trabalhar com o couro. Quando fazia visitas pacíficas ao sertão, Lampião contratava costureiras e ele mesmo escolhia os tecidos e vigiava a confecção das roupas.
Quando Dadá, mulher de Corisco, entrou para o cangaço, aliás, ela foi raptada, aos 13 anos, quando estendia roupa no varal, ela disse que chorava noite e dia e Corisco teve a maior paciência com ela, contratou professores para alfabetizá-la, ela mesma contou isso aos meus pais, na casa dela, em Salvador. Com a morte de Corisco, ela teve psicólogos e psiquiatras, para poder se socializar, ela era uma menina quando conheceu o mundo do cangaço, cresceu e tornou-se mulher naquele mundo, ela não conhecia o outro mundo, foi feito um trabalho de ressocialização nela.
Apesar de muito menina, Dadá sabia costurar, bordar e era muito criativa. Ela entrou no cangaço e foi logo incumbida de costurar as roupas de Lampião e Corisco, ela, para mim, é considerada uma estilista, foi ela que mudou radicalmente os motivos dos bordados e a feitura dos tecidos. Ela lançou moda no cangaço, em 1932, enquanto matava tempo em um abrigo, criou enfeites de couro branco para os chapéus , flores em tecidos coloridos para os bornais – é uma bolsa tiracolo – e para os cintos. Lampião adorou e encomendou chapéus e bornais. Inclusive, os motivos e estrelas dos chapéus variavam, eram de acordo com a importância do cangaceiro, tudo o que vemos em exposições e filmes, nada foi aleatório, feito na loucura, até no cangaço, a moda teve a sua importância, para a moda, havia muita organização, toda a vestimenta tinha a sua razão de estar ali.
Os chapéus eram enfeitados com medalhas e moedas. Os lenços do pescoço eram de seda inglesa ou tafetá francês, depois passaram a ser de tecidos tingidos em cores vivas, o de Lampião era de seda vermelha e não tinha essa de dá nó, era preso com argolas de ouro. Os bornais serviam para guardar comida, roupas, medicamentos, brilhantina e balas, claro. O bordado era presente em tudo de Lampião, nas luvas para se proteger dos espinhos, a cabaça de alumínio era recoberta com tecido bordado. Ah, eles tinha cães de estimação, até as coleiras do cães tinhas incrustações de ouro e prata. As roupas eram feita de mescla grossa, muito resistente, quase impermeável, de boa qualidade, nas cores azul e cáqui.
As mulheres do cangaço usavam dois tipos de roupas, as de mesclas, para a longa marcha nas caatingas, eram vestidos com comprimento abaixo dos joelhos e os da cidade, quando o cangaço “amornava”, Maria Bonita ia a médicos, fazia umas comprinhas no comércio, o “vestido civil” era de seda, na moda, mas do interior, não a moda do litoral, elas não copiavam a moda das grandes cidades, eram vestidos sem decote, usados com meias muito grossas que não dava para saber o verdadeiro formato das pernas. As sandálias era de couro resistente e não eram bordadas. Elas usavam meias do mesmo tecido dos vestidos com perneiras até os joelhos, também decoradas e presas com argolas ou usavam botas. Usavam lenço em cor viva no pescoço, como os seus companheiros. O lenço representava pertencer ao cangaço. Usavam muitos anéis de ouro, muitas correntes como colares, com medalhas, medalhões e crucifixos. Usavam perfumes, sabonete dos bons, pó de arroz.
Os chapéus eram de feltros adornados com medalhas de ouro e prata, para proteger os cabelos, usavam sob o chapéu, lenço de seda ou jérsei . Cabelos curtos eram proibidos. O alisamento dos cabelos eram feitos com loções de muita boa qualidade e amarrados com broches de celuloide, porcelana ou metal.
Lampião escreveu a letra da música Mulher Rendeira, em 1921, em homenagem ao aniversário da sua avó. A canção se tornou internacionalmente famosa por fazer parte da trilha sonora do filme “O Cangaceiro”, em 1953. A versão foi adaptada por Zé do Norte e cantada por Vanja Orico, acompanhada pelo coro dos Demônios da Garoa, foi Durante as gravações, que eles conheceram o compositor Adoniran Barbosa.
Fotos de Maria Bonita, ela com Lampião e outra foto de Corisco e Dadá


NO CINEMA
Foram mais de 20 filmes sobre o cangaço, o longa ” O cangaceiro ” , de 1953, escrito e dirigido por Lima Barreto, com diálogos criados por Rachel de Queiroz, foi inspirado em Lampião, os figurinos são do artista plástico baiano, o maravilhoso Carybé. Foi o primeiro filme brasileiro a vencer no Festival Internacional de Cannes, ganhou o prêmio de melhor filme de aventura e de melhor trilha sonora e Dá-lhe Lampião ! O sucesso foi tão grande, que foi vendido ao Columbia Pictures e conhecido em 80 países, ficou 5 anos em cartaz na França. Aí é que entra a moda, as alpargatas das cangaceiras encantaram as gringas, elas aderiram à moda no verão parisiense. O crítico Salviano Cavalcanti de Paiva definiu o longa como “Nordestern” : Um western que tem no lugar do caubói, um cangaceiro, Lampião é considerado uma espécie de Robin Hood da caatinga.
A atriz, cantora e cineasta carioca Vanja Orico, o ator Milton Ribeiro, que interpreta o cangaceiro Galdino e o lindo ator Alberto Ruschel

A história real do cangaceiro Corisco e Dadá foi contada no filme “Corisco, o Diabo loiro” , em 1969, tendo Leila Diniz, como Dadá e Maurício do Valle, como Corisco. Os meus pais foram anos depois na casa de Dadá, a dona Sérgia, em Salvador, ela ficou louca pelo meu irmão Alexandre, nessa época, eu ainda não tinha nascido. Ela relatou muitos detalhes sobre o cangaço, que entrou muito menina, que atirava para valer, pois não tinha noção do que aquilo tudo representava, ela entrou no cangaço aos 13 anos, depois que esta fase passou, ela foi ajudada por psicólogos e psiquiatras, porque não conhecia o mundo fora do cenário da caatinga. Ela era muito humilde, muito bacana, contou tudo na maior boa vontade, mas era desconfiada, ela tinha medo, quando o meu pai foi na casa dela, mandou o Alexandre, meu irmão era uma criança de seis anos, chamá-la, porque ela temia maus tratos, por ter sido uma cangaceira, meu pai explicou a pesquisa, o Alexandre falou: Se vier a polícia, eu escondo a senhora, ela riu muito e disse : ” Ô meu Deus ! Quanta inocência”, ela morava com os filhos e o companheiro, o senhor Alcides, meu pai todas as vezes que ia lá, ajudava um pouquinho e ela ficava muito feliz. Chegou a escrever para o meu pai. Ela tinha uma caixinha de madeira com os ossos de Corisco, a cabeça de Corisco ainda estava no Museu do Instituto Nina Rodrigues. Ela gostou tanto dos meus pais, que contou que foi consultora do figurino no filme “Corisco, o Diabo Loiro”, que ajudou muito no figurino do filme e deu à minha mãe, de presente, um bornal e um vestido, igual ao que ela fazia para as mulheres do cangaço.
Fotos do Filme: Maurício do Valle, Leila Diniz e Dadá, a senhorinha de óculos, com lenço na cabeça


Presentes que Dadá deu a minha mãe : O bornal de tecido resistente, fecho de botões, com alças bem largas para não ferir o portador, os detalhes dos bordados coloridos com motivos florais. O vestido de mescla azul, abaixo dos joelhos, parece uma túnica, o zíper é na frente, para não perder tempo, mangas longas para proteger do sol e dos espinhos, é enfeitado com galões coloridos na altura do peito, nas mangas e nos bolsos.



NA TELEVISÃO
AAhhh tenho um imenso carinho por essa minissérie que passou na Globo, em 1982, “Lampião e Maria Bonita“, com Tânia Alves, como Maria Bonita e Nelson Xavier, como Lampião, eu tenho um carinho especial, porque na época, eu era criança, mas lembro bem, eu lembro que numa sexta-feira, na hora da minissérie, meus pais estavam no supermercado e só ficou em casa, eu, meu irmão e a babá, quando meus pais chegaram, minha mãe trouxe um monte de chocolates, foi uma noite que ficou nas minhas lembranças queridas da infância, assim com a música de abertura, cantada por Amelhinha.
Fotos com Lampião e Maria Bonita, ele, de chapéu de couro e ela, de filtro. Os detalhes dos lenços de seda, também bordados, roupa de mescla azul, as mulheres também usavam cinza. A Tânia Alves e o Nelson Xavier, foi um dos cangaceiros mais bem representados e interpretados, ela, com todas as características da mulher do sertão, ele, também, apesar de ser paulista, mas deve ter descendência nordestina. O figurino perfeito, os detalhes do lenços, do chapéu de couro, realmente foi um trabalho lindo de toda a equipe, que teve muita dignidade e muito respeito à história e às pessoas representadas.


NAS PASSARELAS
ZUZU ANGEL, foi a primeira estilista a mostrar o cangaço na moda, inclusive foi muito criticada por outros estilistas famosos e críticos da moda, a coleção Maria Bonita foi uma das International Dateline Collection by Zuzu Angel, de 1970, em Nova York, encantando editoras de moda e compradores internacionais. Por isso, ela afirmava : “Eu sou a moda brasileira”.
Chemisier , saia-calça, todas as roupas Maria Bonita são de seda pura. O cinto é de chapas com pedras brasileiras.


JEAN PAUL GAULTIER, COLEÇÃO PRIMAVERA/VERÃO 2010, Coleção inspirada no cangaço, com muito couro, tons terrosos, uma Maria Bonita sofisticada.


RONALDO FRAGA, INVERNO 2014, COLEÇÃO CARNE SECA, com muito couro, handmade, como tricô rústico em maxi pulls



VERÃO 2017
Uma das tendências para o próximo verão será inspiração Nordeste, Maria Bonita e o Sertão, muitos tons crus, caramelo, o handmade em artesanato com muitos detalhes preciosos que o deixam ricos em renda, couro, algodão, linho, palha e muitos acessórios rústicos que ficam maravilhosos com jeans. Os desfiles das Hermès e Céline mostraram esta inspiração. A LILLY SARTI, é uma das minhas estilistas prediletas, a coleção Verão 2017 foi inspirada na Maria Bonita, o tema foi Sertão Líquido, com muitos looks fluidos tingidos em tons terrosos, tecidos como Seda, linho, algodão, gabardines, crepe, renda, tule, jérsei, malha canelada, jacquard, crochê, couro e chamois e muitas texturas rústicas e artesanais, uma Maria Bonita em versão ultrafeminina. Os cabelos foram soltos, lisos e descomplicados, naturais como a maquiagem em tons de pêssego, laranja, muito natural, como se não estivesse maquiada, tipo cara lavada, nos olhos foram duas sombras, uma com toque de cor e outra com acabamento molhado, para dar efeito suor, comum no sertão, o molhado foi feito com brilho labial em uma fina camada, a outra foi cobre com efeito glossy, usada também no arco do cupido pra dar um efeito mais volumoso, os cílios, apenas com curvex, sem máscara, nos lábios dois tons de batons, o nude e no centro uma iluminada. Na pele, foi hidratante ou bb cream.


O Cactos na Broadway
Estreia em 8 de dezembro de 1965, “Cactus Flower“, com Lauren Bacall

Aproximadamente 750 peças de Lauren Bacall foram a leilão, que aconteceu 31 de março e primeiro de abril de 2015, em Nova York, na Bonhams uma casa de leilões, entre as peças leiloadas estavam lembranças do teatro : Um abajour e um cartaz

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